Muita gente acredita que projetos de tecnologia falham por API, servidor ou banco de dados. No entanto, isso é raro. Na prática, os projetos não quebram na tecnologia, eles quebram nas pessoas. E o motivo mais frequente é simples, mas negligenciado: expectativas sem dono.
Esse problema é especialmente evidente em contextos complexos, como integrações entre ERP e sistemas satélites de Supply Chain, comuns em indústrias e instituições de saúde.
Nessas situações, múltiplas áreas e fornecedores interagem, o que torna a governança e a clareza de responsabilidades ainda mais essenciais.
Muitos times, pouca clareza
Em um projeto complexo, vários grupos entram em cena: Governança de TI, PMO, liderança de Supply, gerentes, coordenadores, analistas de TI e fornecedores de tecnologia.
Com tantos envolvidos, o risco é claro: todo mundo participa, mas ninguém é realmente dono de nada.
Consequentemente, começam os sintomas: decisões que não saem, tarefas adiadas, reuniões repetitivas e atrasos sem responsável. Isso não é falha técnica, é ausência de governança e expectativas sem responsáveis.
Expectativas sem dono: o risco oculto
Expectativas sem dono não aparecem no cronograma nem no Kanban. Elas se manifestam em frases sutis do cotidiano:
– “Achei que o fornecedor faria isso.”
– “Entendi que TI já tinha priorizado.”
– “Pensei que o processo não mudaria.”
Essas falas revelam um problema de comunicação, não de má intenção. São suposições não combinadas. Projetos amparados em suposições não atrasam, eles implodem.

Responsabilidade é propriedade, não tarefa
Ter uma tarefa não é o mesmo que ter responsabilidade. Executar não é o mesmo que assumir a propriedade do resultado.
Em muitos projetos, as pessoas fazem o que foi pedido, mas evitam assumir riscos ou tomar decisões difíceis.
Por isso, o papel de líderes (PMOs, sponsors e gestores) vai além de acompanhar tarefas. Eles precisam garantir que cada expectativa tenha um dono claro, promovendo responsabilidade e fluidez nas entregas.
Na saúde, o problema não era API, era decisão
Em projetos de integração entre ERP e sistemas de Supply Chain na área da saúde, é comum encontrar status bem definidos, reuniões organizadas e integrações planejadas. Mesmo assim, três perguntas permanecem sem dono:
- Quem decide quando o processo precisa mudar?
- Quem define a prioridade entre operação e projeto?
- Quem responde quando o estoque físico e o sistêmico divergem?
Quando essas respostas não têm responsáveis, surgem conflitos silenciosos. Assim, o projeto trava, não por falha tecnológica, mas por governança insuficiente.

Kick-off é definição de poder
Muitos tratam o Kick-off apenas como uma apresentação inicial. Contudo, ele deveria ser o momento de definir responsabilidades e poder de decisão. É nele que se deve esclarecer:
- Quem decide o quê.
- O que pode atrasar e o que não pode.
- Critérios de priorização.
- Papéis e canais de escalonamento.
Portanto, Kick-off não é sobre slides, é sobre clareza e decisão. Sem isso, o projeto nasce bonito, mas frágil.
Cultura de responsabilidade: o verdadeiro diferencial
Nenhuma tecnologia substitui a clareza de papéis, decisões e riscos. Equipes que evitam responsabilidade geram retrabalho e atrasos silenciosos. Já as que assumem a propriedade do resultado constroem confiança e entregam valor real.
Ter expectativas com dono é o que transforma uma equipe boa em uma equipe excelente.
Como resolver no dia a dia
Para que projetos complexos sejam saudáveis, três pilares são fundamentais:
- Clareza de responsabilidade: cada decisão relevante precisa ter um dono nominal.
- Decisões explícitas: uma decisão só existe quando é registrada e comunicada.
- Transparência sobre atrasos: atraso transparente é gestão; atraso escondido é risco.
Lembre-se: projetos saudáveis não são os que nunca atrasam, mas os que atrasam com dono, contexto e plano de ação.
Conclusão
Projetos SaaS complexos, como integrações entre ERP e sistemas satélites, raramente falham por tecnologia. Na verdade, eles falham por expectativas sem dono, responsabilidades difusas e decisões implícitas.
Quando se transforma suposição em acordo e tarefa em propriedade, o projeto evolui de bonito no PowerPoint para eficiente na prática.

Cyro Glonc
Customer Success Manager e Partner
GTPLAN Supply Chain 5.0




