Por Paula Adamo (RH pra Você)

Só que… o problema está mesmo na falta de talentos?
Para Paula Adamo, gerente de RH da GTPLAN, empresa especializada em tecnologia SaaS para Supply Chain, o diagnóstico precisa ser ampliado. Segundo ela, muitas organizações continuam procurando profissionais “prontos” quando o verdadeiro desafio é criar ambientes capazes de desenvolver essas competências internamente.
“Muita empresa diz que falta talento em IA quando, na prática, ainda não criou ambiente, método e cultura para que os próprios profissionais evoluam junto com essa transformação. O problema não é só encontrar pessoas prontas. É saber formar, integrar e potencializar talentos dentro de uma nova lógica de trabalho.“
A corrida por especialistas esconde outro desafio
O avanço da Inteligência Artificial acontece em um momento curioso para o mercado de trabalho.
Ao mesmo tempo em que empresas relatam dificuldade para contratar especialistas, muitas delas também reduzem equipes em nome da automação. Para Paula Adamo, porém, essa aparente contradição nasce de uma interpretação equivocada sobre o papel da tecnologia.
De acordo com a executiva, a IA tende a substituir tarefas repetitivas – e não necessariamente profissionais. Em contrapartida, cresce a demanda por pessoas capazes de interpretar informações, supervisionar processos automatizados, tomar decisões e conectar tecnologia aos objetivos do negócio.
“Não estamos vivendo uma substituição pura e simples de pessoas por máquinas. Estamos assistindo à transformação das funções. O profissional passa a entregar valor de outra forma.”
O investimento deixa de ser apenas em tecnologia
Na GTPLAN, a estratégia foi tratar a Inteligência Artificial como uma transformação organizacional, e não apenas tecnológica.
A empresa adotou uma abordagem “IA First“, garantindo acesso às ferramentas para todos os colaboradores, independentemente da área de atuação. A ideia foi incentivar o uso cotidiano da tecnologia enquanto desenvolve, paralelamente, programas estruturados de capacitação.
Paula revela que os resultados começaram a aparecer também nos indicadores de pessoas.
Nos últimos 12 meses, o turnover ficou em apenas 4%, enquanto a redução do quadro ocorreu de forma pontual, limitada a quatro posições.
Para ela, o foco está em ampliar o potencial das equipes já existentes. “Buscar profissionais completamente prontos no mercado costuma ser caro, demorado e, muitas vezes, pouco eficiente. Quem já conhece a cultura, os processos e o negócio frequentemente conseguem evoluir mais rapidamente quando recebe as ferramentas e o suporte adequados”, explica.
IA muda também a forma de avaliar desempenho
A transformação não se limita às ferramentas utilizadas pelos colaboradores.
A empresa também revisa seus modelos de avaliação de desempenho para refletir uma realidade em que produtividade deixa de estar associada apenas ao volume de execução e passa a considerar capacidade analítica, aprendizagem contínua, colaboração com sistemas inteligentes e geração de valor para o negócio.
Na visão da gerente de Recursos Humanos, esse será um dos principais desafios dos próximos anos.
“O maior erro dos próximos dois anos será tratar IA apenas como ferramenta de eficiência e redução de custo. As empresas que saírem na frente serão as que conseguirem elevar o nível médio do time inteiro, não as que encontrarem mais especialistas raros no mercado.”
Na avaliação de Paula Adamo, a transformação provocada pela Inteligência Artificial amplia o protagonismo do RH. Em vez de atuar apenas na contratação de especialistas, a área passa a assumir responsabilidades relacionadas ao desenvolvimento de competências, requalificação profissional, revisão de modelos de trabalho e apoio à mudança cultural.
Além disso, competências como pensamento crítico, resolução de problemas, visão de negócio, criatividade e capacidade de aprender continuamente tornam-se ainda mais valiosas quando combinadas ao uso da Inteligência Artificial.
“IA não resolve uma empresa que continua operando com lógica antiga. Sem mudança de processo, cultura e modelo de gestão, a tecnologia vira só verniz”, diz. “Fala-se muito sobre falta de talentos. Em muitos casos, o que falta mesmo é um ambiente capaz de permitir que esses talentos evoluam” finaliza Paula.

Paula Adamo
Gerente de RH na GTPLAN



